O Vale do Rio Uruguai no Goio-Ên abriga um patrimônio arqueológico riquíssimo, com vestígios que datam de milhares de anos. Antes da colonização europeia, a região era habitada por grupos de caçadores-coletores e, mais tarde, por comunidades das tradições Taquara-Itararé (ancestrais dos Kaingang) e Tupiguarani. Pesquisas identificaram pontas de flecha em pedra, fragmentos de cerâmica decorada e antigos locais de acampamento que provam que nossas margens são habitadas e cultivadas muito antes da fundação de Chapecó.
Muitas vezes, ao olharmos para as águas calmas do Rio Uruguai aqui no Goio-Ên, pensamos apenas na história recente: na construção da ponte, nas balsas ou na chegada dos primeiros imigrantes italianos e alemães. No entanto, o solo sob nossos pés guarda segredos muito mais antigos. As pesquisas arqueológicas realizadas na bacia do Rio Uruguai, especialmente durante os estudos de impacto para a construção da Usina Foz do Chapecó, revelaram que o Goio-Ên foi um centro de vida vibrante para povos originários por milênios. Como um vizinho que gosta de uma boa história, convido você a mergulhar nesse passado que a maioria de nós nem imagina enquanto toma um chimarrão na margem.
Quem foram os primeiros habitantes da nossa região?
As evidências arqueológicas indicam que o Vale do Rio Uruguai começou a ser ocupado há cerca de 10 mil anos por grupos de caçadores-coletores. Esses povos eram nômades e utilizavam as abundantes pedras de basalto e quartzo da região para fabricar instrumentos de corte e caça. De acordo com o IPHAN, esses primeiros grupos deixaram vestígios de indústrias líticas (ferramentas de pedra) que mostram uma adaptação perfeita ao ambiente de mata densa e ao relevo acidentado do nosso vale. Eles buscavam no rio não apenas água, mas também uma rota de deslocamento e uma fonte inesgotável de alimento.
Como eram as aldeias que existiam no Goio-Ên?
Muito antes de existir o distrito de Chapecó, o Goio-Ên viu o florescimento de sociedades agrícolas. Foram identificados sítios arqueológicos das tradições Taquara-Itararé e Tupiguarani. Os grupos da tradição Taquara-Itararé são conhecidos pelas suas famosas ‘casas subterrâneas’ (embora mais comuns em áreas de planalto) e por uma cerâmica pequena e resistente. Já os Tupiguarani, que subiam o rio, deixaram para trás fragmentos de grandes vasilhas de cerâmica policromada (pintada de vermelho e preto sobre fundo branco) e corrugada. Essas aldeias eram estrategicamente posicionadas em terraços fluviais — aquelas áreas planas um pouco acima do nível normal do rio — para evitar as cheias e garantir solo fértil para o plantio de milho, feijão e abóbora.
O que as escavações de salvamento revelaram?
Quando a Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó começou a ser planejada, uma imensa operação de resgate arqueológico foi montada. Segundo relatórios disponíveis no Museu de Arqueologia e Etnologia da UFSC, dezenas de novos sítios foram registrados e milhares de artefatos foram resgatados antes que algumas áreas fossem inundadas. No Goio-Ên e arredores, foram encontrados desde lascas de pedra descartadas durante a fabricação de ferramentas até urnas funerárias e adornos labiais (tembetás). Esses achados ajudaram a montar um quebra-cabeça de como era a organização social desses povos, mostrando que o Rio Uruguai funcionava como uma verdadeira ‘rodovia’ que conectava diferentes culturas do interior do continente ao litoral.
Por que o Rio Uruguai atraía tantos povos?
O Rio Uruguai sempre foi o coração da vida no Goio-Ên. Para os povos ancestrais, a confluência de rios e a presença de corredeiras (antes da barragem) eram locais ideais para a pesca migratória, como a da piracema. Além disso, as margens ricas em argila facilitavam a produção de cerâmica. O microclima do vale, que é mais quente que o topo das serras de Chapecó, permitia ciclos agrícolas mais favoráveis. O IBGE e a Prefeitura de Chapecó destacam em seus registros históricos a importância geográfica desse corredor natural para a ocupação humana da região Oeste de Santa Catarina.
Onde ver esses artefatos hoje?
A maior parte do que foi retirado do solo do Goio-Ên e região está protegida em museus. O Museu de História e Arte de Chapecó (MHAC) é o local principal para quem deseja ver de perto as pontas de flecha e as cerâmicas que pertenceram aos antigos moradores do nosso vale. É uma visita essencial para quem quer entender que o Goio-Ên não é apenas um lugar de lazer, mas um solo sagrado que conta a história da sobrevivência e da cultura humana no Sul do Brasil há mais de cem gerações.
Nota de Segurança: O Rio Uruguai guarda muita história, mas também exige cuidado constante. O nível e a correnteza das águas podem variar rapidamente devido à operação da usina hidrelétrica e às chuvas na cabeceira. Se for aproveitar as margens para lazer, nunca entre na água sem conhecer o local e sempre utilize equipamentos de segurança, como coletes salva-vidas.
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Perguntas frequentes
Existem casas subterrâneas no Goio-Ên?
As casas subterrâneas são mais comuns nas partes altas da Serra Geral, mas no Vale do Rio Uruguai, no Goio-Ên, o que predomina são os sítios a céu aberto em terraços fluviais. Os vestígios encontrados aqui são principalmente cerâmicas e ferramentas de pedra (líticas) deixadas por povos que aproveitavam a facilidade de pesca e transporte pelo rio.
O que fazer se eu encontrar um objeto antigo na margem do rio?
Por lei, todo achado arqueológico pertence à União. Caso encontre algo que pareça ser uma ferramenta de pedra ou cerâmica antiga, o ideal é não remover do local, tirar uma foto e informar o IPHAN ou o Museu de História de Chapecó. Remover artefatos sem técnica arqueológica retira o contexto histórico que ajuda os pesquisadores a entenderem o passado.