Historia

Como os balseiros transportavam madeira pelo Rio Uruguai?

Publicado em 08/09/2026 · Portal Villagos

Os balseiros foram trabalhadores que, entre 1920 e 1960, conduziam enormes estruturas de madeira nativa pelo Rio Uruguai. Eles montavam as balsas no porto do Goio-Ên, unindo toras de araucária com amarras naturais, e aproveitavam as cheias do rio para navegar até portos no Rio Grande do Sul e Argentina. Essa atividade foi o primeiro grande motor econômico do oeste catarinense, permitindo a exportação de recursos naturais antes da construção das rodovias.

Para entender a paisagem que vemos hoje da ponte do Goio-Ên, precisamos voltar no tempo, quando o som dos motores das lanchas era substituído pelo ranger das toras de madeira e pelo grito dos comandantes das balsas. Antes das estradas de asfalto cruzarem o grande oeste, o Rio Uruguai era a nossa única e verdadeira ‘rodovia’. A colonização de Chapecó e o desenvolvimento dos nossos distritos rurais estão profundamente ligados a esses homens corajosos que faziam do rio o seu sustento e sua morada temporária.

Qual era a importância econômica das balsas de madeira para a região?

No início do século XX, a região de Chapecó era coberta por densas florestas de araucária e madeiras de lei. Com a chegada das empresas colonizadoras, como a Colonizadora Bertaso, houve a necessidade de escoar essa riqueza. Como não havia ferrovias ou estradas transitáveis para caminhões pesados, a solução foi utilizar a força das águas. O ciclo da madeira transformou o Goio-Ên em um ponto estratégico de embarque. Conforme dados do histórico do IBGE sobre Chapecó, a extração vegetal e o comércio de madeira foram as bases que permitiram a consolidação do município, atraindo imigrantes e investimentos que moldaram a cidade.

Como eram construídas as famosas balsas do Rio Uruguai?

As balsas não eram apenas troncos jogados na água; eram obras de engenharia rústica e eficiente. Os balseiros utilizavam toras de pinheiro-do-paraná (araucária) pela sua flutuabilidade. Para unir as toras, não usavam pregos de metal, que eram caros e escassos, mas sim ‘peias’ feitas de guajuvira ou cipós resistentes. Uma balsa completa podia ter vários ’lances’ (seções), chegando a medir mais de 50 metros de comprimento. No centro da balsa, construía-se o ‘rancho’, uma pequena cabana de madeira onde os balseiros cozinhavam, dormiam e guardavam seus parcos pertences durante as semanas de viagem.

Quais eram os maiores desafios de navegar pelo Goio-Ên?

O Rio Uruguai é conhecido por sua beleza, mas também por sua força. Os balseiros dependiam das ‘repiadas’ (subidas repentinas do nível do rio após chuvas) para conseguir passar por trechos rasos e pedregosos. O trecho do Goio-Ên exigia perícia máxima, pois o rio apresenta diversas curvas e variações de profundidade.

Nota de segurança atual: Assim como no passado, o Rio Uruguai ainda exige respeito. O nível e a correnteza variam drasticamente conforme as chuvas e a operação das barragens hidrelétricas. Atividades náuticas modernas devem sempre considerar que o leito do rio possui rochas e correntes subaquáticas que podem ser perigosas para quem não conhece bem o local.

Como era a rotina e a cultura dos balseiros durante a viagem?

A vida sobre as balsas era de privação e adrenalina. A alimentação baseava-se em feijão, charque, farinha de mandioca e o pinhão, abundante na época. A figura do ‘mestre’ ou ‘piloto’ era central; era ele quem conhecia cada pedra e cada remanso do rio até a fronteira com a Argentina ou os portos de Uruguaiana e São Borja. Essa cultura deixou marcas na nossa música regional e na gastronomia, reforçando o espírito de resistência e adaptação do povo do oeste. Muitas dessas memórias e objetos da época podem ser encontrados no Museu de História e Arte de Chapecó - MHAC, que preserva o acervo sobre a colonização e os ciclos econômicos locais.

Por que o ciclo dos balseiros chegou ao fim?

Duas grandes mudanças marcaram o fim dessa era épica na década de 1960. Primeiro, a abertura das rodovias estaduais e federais (como a BR-282), que tornou o transporte por caminhões muito mais rápido e previsível. Segundo, o esgotamento das grandes reservas de madeira nativa próximas às margens do rio. Mais tarde, a construção de barragens para usinas hidrelétricas alterou definitivamente a dinâmica do rio, criando lagos onde antes havia corredeiras, o que impossibilitaria a navegação das balsas de toras da maneira como eram feitas. Hoje, o legado dos balseiros permanece como uma página heroica da nossa história, lembrando-nos de que o Rio Uruguai foi o berço da Chapecó moderna.

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Perguntas frequentes

Quanto tempo durava a viagem de uma balsa de madeira?

O que aconteceu com a madeira transportada naquela época?

A maior parte da madeira, composta por araucárias e imbuías centenárias, era enviada para a Argentina e para o Rio Grande do Sul, sendo utilizada na construção civil e naval, além da fabricação de móveis. Esse comércio gerou o capital necessário para o crescimento inicial de Chapecó.

Fontes e referências

  1. IBGE - Histórico de Chapecó
  2. Museu de História e Arte de Chapecó (MHAC)

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